quinta-feira, 24 de maio de 2012

Um dia suspenso



Este texto que fala, no contexto dos anos 40, sobre a era da tecnologia, foi lido como um conto para um programa vespertino de rádio; como trabalho da disciplina Iniciação ao rádio e TV no curso de Jornalismo. 

Um dia suspenso

A pequena cidade de São Manoel do Passa Cinco, situada em qualquer lugar do sudeste do Brasil, teve, o que pode ser chamado, um dia suspenso.  Tal fato foi devido ao aparecimento, repentino, em plena Praça da Matriz, no meio da manhã da última quarta-feira, de um artefato do qual nenhuma pessoa no mundo tenha conhecimento.

A princípio a população, atônita, pensava estar diante de uma nave alienígena, pois era o que parecia ser uma cápsula, como as que o senhor Mário Magalhães, o boticário, usa como invólucro para tornar os medicamentos mais toleráveis, mas do tamanho de um automóvel Ford, de material desconhecido, sem nenhuma janela ou orifício pelo qual pudesse circular o ar.
Num piscar de olhos, toda a população da pequena cidade estava em volta do curiosíssimo objeto que, após poucos minutos se abriu, ao meio, como podem abertas as cápsulas de medicamentos.
De dentro dela saíram dois homens, iguais a qualquer um dos que conhecemos, dois senhores aparentando ter por volta de sessenta anos, embora apresentassem uma grande vitalidade e usassem roupas feitas com tecidos  de existência nunca vista. Olhavam ao redor com expressões de surpresa e encantamento. Aos poucos foram se mostrando mais serenos e todos ouviram quando começaram a falar entre si, em inglês, o que deu motivo de outro encantamento para a população.


Imediatamente o senhor Hugo Pereira, ali presente, professor de inglês da Escola Normal, traduzia o que falavam, embora dissesse que o fazia a muito custo e sem muita segurança, porque falavam de maneira muito rápida, com as palavras apostrofadas.

Ao observarem que o Prof. Hugo podia compreender sua língua, se dirigiram a ele. Queriam saber onde estavam, e qual era a data atual. A cada resposta do professor, seus rostos se iluminavam em claros sorrisos.

Em seguida passaram eles a responder ao professor as infinitas questões que povoavam a imaginação das pessoas ao redor. Disseram se chamar William Gates e Steven Jobs, que eram cidadãos dos Estados Unidos da América, que nasceram ambos, no futuro ano de 1955 e que o tempo atual para eles seria o ano de 2015.

Explicaram a presença deles naquele instante como o resultado um árduo trabalho que desenvolvem em conjunto, há cerca de 12 anos: a cápsula que encerra os requisitos necessários para se viajar através do tempo, e esta  fora a primeira que conseguiram concretizar.

Ambos são pesquisadores científicos que se tornaram ricos empresários, aliando o conhecimento de suas descobertas e invenções a um também grande tino comercial. Disseram que sempre foram considerados rivais, e quase inimigos, por serem os criadores das duas maiores empresas no ramo do que chamaram de Informática. No entanto, eram amigos e admiradores recíprocos, a ponto de, secretamente, usarem as informações das pesquisas mais recentes de suas empresas e desenvolverem o projeto Viagem no Tempo, usando a colaboração de dois ou três fiéis e discretíssimos colaboradores. Tinham em comum este segredo que, no momento oportuno serviria para, mais uma vez, surpreenderem a humanidade.

Como se não bastasse a própria presença deles e sua capsula maluca, infinitamente mais surpreendente eram os aparelhos que compunham o  seu interior.  Algumas pessoas tiveram medo e saíram correndo ao vê-los, outras, mais esclarecidas demonstravam curiosidade em conhecê-los e vê-los em funcionamento, enquanto ouviam as explicações traduzidas pelo estupefato professor Hugo.

O principal deles é o que chamam de computador, um aparelho de mais ou menos 25 por 35 centímetros, que se abre como um livro, totalmente diferente de tudo o que já tenhamos visto. Abrindo-o ao meio aparece de um lado, uma tela de vidro, que funciona como um pequenino cinema a cores, cujas imagens variam de acordo com as informações demandadas por meio do teclado, como o de uma máquina de escrever (que não usa papel nem fita) que fica acoplado a ela. Um detalhe muito importante: este aparelho não precisa estar ligado por fios à eletricidade, armazena energia em pequeninas baterias, o que faz com que pareçam caixas de mágicas.

Este aparelho contem todas as informações disponíveis na face da Terra. Segundo os senhores William e Steven todos os aparelhos da Terra podem estar interligados entre si, por um sistema chamado rede, que pode ser comparada a uma teia de aranha invisível, assim, as pessoas podem trocar informações instantaneamente mesmo estando em lados opostos do planeta.

Pela tela de vidro do “computador” do senhor Jobs as pessoas puderam ver o que acreditamos ser inenarrável, mas faremos o possível para descrever certos aparelhos, entre eles, o mais fascinante: a tele-visão

Todos nós já conhecemos muito bem o rádio, pois bem, tente imaginar um rádio no qual se pode, ao mesmo tempo em que acontecem, ver as notícias dadas por ele. Pois bem isto já existe no tempo de tais visitantes, por isso chama-se televisão, que quer dizer visão à distancia.

Os dois cientistas disseram que no tempo deles, quase todas as casas possuem um aparelho desses, pelo o qual assistem teatro, espetáculos musicais, se inteiram das notícias além de apreciarem os mais diversos espetáculos.

Nos países mais adiantados, a televisão já é transmitida por um meio mais moderno ainda, chamado por eles digital, em que as telas podem ser enormes e finas, com mais de um metro de comprimento e proporcional altura que a faça retangular, por ela, chegam a poder assistir a mais de um programa ao mesmo tempo, pois a tela pode se subdividir em duas ou mais pequenas telas que passam programas diferentes em imagens que parecem mais reais do que se estivessem sendo vistas ao natural.

O que causou maior impressão foram uns aparelhos pequeninos, que cabem na palma da mão, podendo ser facilmente levados no bolso da camisa ou nas bolsas das senhoras, dos quais se pode assistir aos programas da tele-visào em todo tempo e lugar que se queira e estar em conexão com a rede internacional de computadores. Em outras palavras, por meio de um pequeno aparelhinho daqueles, se pode ter acesso à toda a cultura humana; como se esses aparelhinhos mágicos contivessem todas as bibliotecas do mundo.

Mas, o mais incrível é que esses aparelhos, a que dão o nome de celular, porque seriam como células que contêm todas as informações de um organismo por fazer parte dele, servem também como telefones portáteis, o que faz com que se possa falar onde, e com quem se quiser a todo tempo e lugar, podendo até mesmo ver a pessoa com quem se fala.


Após cerca de duas horas de demonstrações de maravilhas, os senhores William e Steven foram convidados pelo senhor Paulo Furtado, o prefeito, para se hospedarem em sua residência, sempre por meio da tradução do professor Hugo Pereira.


De posse de um pequeno aparelho que também se cabe na mão, eles seguiram o senhor prefeito, pedindo permissão para efetuarem, por meio dele, a “filmagem” de toda a nossa cidade, sua gente, seu povo, seus costumes, tradições, crenças, devoções, arquivos e objetos do pequeno museu municipal. O prefeito consultou as pessoas mais influentes, como o senhor Juiz de Direito, o senhor Promotor Público além dos professores e pessoas mais eruditas da cidade. Todos concordaram e deram ”entrevistas” traduzidas pelo professor Hugo, que foram “armazenadas”, como filmes de cinema, na pequena filmadora do senhor William.


Ao final do dia disseram que precisavam partir. Toda a pequena população se reuniu novamente ao redor da capsula. Eles se despediram, entraram no veículo, e deram partida. Neste instante houve um tremendo efeito luminoso, sem nenhum ruído, mas que fez com todos caíssem desmaiados.

Ao voltarem a si, após pouquíssimos minutos, as reações foram também inesperadas, a maioria não se lembrava, absolutamente, de nada do que tinha acontecido, outros tinham certa lembrança, como se fosse de um sonho, do qual se retém poucas memórias; mas houve quem se lembrasse de tudo, tintim por tintim, mas tal pessoa jamais terá coragem de comentar com quer que seja a repeito, por temor de se passar por lunática. Porem, a sós com seus pensamentos, digeria as lembranças, uma a uma, até seus neurônios se acostumarem com elas.

Tal pessoa, depois de tanto refletir a respeito, chega mesmo a pensar que os senhores William Gates e Steven Jobs pudessem não ter sido absolutamente sinceros, talvez aquela não fosse a primeira viagem que fizeram no tempo,  pode ser que, nas primeiras viagens tivessem ido ao futuro quando adquiriram o que denominavam tecnologia, e de volta a seu tempo, arregaçaram as mangas e entregaram as mãos  à obra, vindo a se tornarem ricos. Agora podem se dar ao luxo de viver viajando por aí de tempo em tempo.



giselle neves moreira de aguiar
Sorocaba, 13/03/2011

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