terça-feira, 26 de agosto de 2014

Santa Mônica, exemplo de mãe cristã



No dia 27 de agosto, a Igreja comemora o dia de  Santa Mônica, mãe de Santo Agostinho. Conta-se ela que foi canonizada por ter rezado durante muitos anos pela conversão de seu filho,  após a qual  ele se tornou um grande santo, cuja sabedoria é reconhecida mesmo fora dos meios religiosos.

Eis parte do que Santo Agostinho escreveu sobre ela, no capítulo XI do seu livro “ Confissões”:

O sonho de Mônica 

Mas estendeste tua mão do alto, e arrancaste minha alma deste abismo de trevas, enquanto minha mãe, tua fiel serva, chorava-me diante de ti muito mais do que as outras mães costumam chorar sobre o cadáver dos filhos, pois via a morte de minha alma com a fé e o espírito que havia recebido de ti.

E tu a escutaste, Senhor, tu a ouviste e não desprezaste suas lágrimas que, brotando copiosas, regavam o solo debaixo de seus olhos por onde fazia sua oração; sim, tu a escutaste, Senhor. Com efeito, donde podia vir aquele sonho, com que a consolaste, ao ponto de me admitir em sua companhia e mesa, fato que havia me negado porque aborrecia e detestava as blasfêmias do meu erro? 

Nesse sonho viu-se de pé sobre uma régua de madeira; e um jovem resplandecente, alegre e risonho que vinha ao seu encontro, triste e amarga. Este lhe perguntou a causa de sua tristeza e lágrimas diárias, não por curiosidade, como sói acontecer, mas para instruí-la; e respondendo-lhe ela que chorava a minha perdição, mandou-lhe, para sua tranqüilidade, que prestasse atenção e visse: por onde ela estava também estaria eu. Apenas olhou, viu-me junto de si, de pé sobre a mesma régua. 

De onde veio este sonho, senão dos ouvidos que tinhas atentos a seu coração, ó Deus bom e onipotente, que cuidas de cada um de nós como se não tivesses outro para cuidar, zelando de todos como de cada um! 

E como explicar o que se segue? Contou-me minha mãe esta visão, e querendo-a eu persuadir de que significava o contrário, e que não devia desesperar de ser algum dia o que eu era, isto é, maniqueísta, ela, sem nenhuma hesitação, me respondeu: “Não; não me foi dito: onde ele está ali estarás tu, mas onde tu estás ali estará ele também”. 

Confesso, Senhor, e muitas vezes disse que, pelo que me recordo, me abalou mais esta tua resposta pela solicitude de minha mãe, imperturbável diante de explicação falsa e ardilosa, e por ter visto o que se devia ver – e que eu certamente não veria sem que ela o dissesse – que o mesmo sonho com o qual anunciaste a esta piedosa mulher com tanta antecedência, a fim de consolá-la em sua aflição presente, uma alegria que só havia de se realizar muito tempo depois. 

Seguiram-se, efetivamente, quase nove anos, durante os quais continuei a me revolver naquele abismo de lodo e trevas de erro, afundando-me tanto mais quanto mais esforços fazia para me libertar. Entretanto, aquela piedosa viúva, casta e sóbria como as que tu amas, já um pouco mais alegre com a esperança, porém, não menos solícita em suas lágrimas e gemidos, não cessava de chorar por mim em tua presença em todas as horas de suas orações; e suas preces eram aceitas a teus olhos, mas deixava-me ainda revolver-me e envolver-me naquela escuridão. 

 Leia o livro

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

Como a lógica de Deus é mais profunda e abrangente que pobre lógica humana.





Evangelho - Mt 20,1-16a -

 Naquele tempo, disse Jesus aos seus discípulos esta parábola: “O Reino dos Céus é como a história do patrão que saiu de madrugada para contratar trabalhadores para a sua vinha. Combinou com os trabalhadores uma moeda de prata por dia, e os mandou para a vinha. Às nove horas da manhã, o patrão saiu de novo, viu outros que estavam na praça, desocupados, e lhes disse: ‘Ide também vós para a minha vinha! E eu vos pagarei o que for justo’.

E eles foram. O patrão saiu de novo ao meio-dia e às três horas da tarde, e fez a mesma coisa. Saindo outra vez pelas cinco horas da tarde, encontrou outros que estavam na praça, e lhes disse: ‘Por que estais aí o dia inteiro desocupados?’ Eles responderam: ‘Porque ninguém nos contratou’. O patrão lhes disse: ‘Ide vós também para a minha vinha’. 

Quando chegou a tarde, o patrão disse ao administrador: ‘Chama os trabalhadores e paga-lhes uma diária a todos, começando pelos últimos até os primeiros!’Vieram os que tinham sido contratados às cinco da tarde e cada um recebeu uma moeda de prata. Em seguida vieram os que foram contratados primeiro, e pensavam que iam receber mais. Porém, cada um deles recebeu uma moeda de prata. Ao receberem o pagamento, começaram a resmungar contra o patrão:‘Estes últimos trabalharam uma hora só, e tu os igualaste a nós, que suportamos o cansaço e o calor o dia inteiro’.

Então o patrão disse a um deles: ‘Amigo, eu não fui injusto contigo. Não combinamos uma moeda de prata? Toma o que é teu e volta para casa! Eu quero dar a este que foi contratado por último o mesmo que dei a ti.Por acaso não tenho o direito de fazer o que quero com aquilo que me pertence? Ou estás com inveja, porque estou sendo bom?’ Assim, os últimos serão os primeiros, e os primeiros serão os últimos”.

sábado, 16 de agosto de 2014

Os que fazem Sorocaba, ontem, hoje e amanhã.

Todos os anos, grande parte do povo de Sorocaba se reúne na principal rua do seu centro antigo, para comemorar o dia da cidade, que neste ano faz 360 anos.

Tudo começa com as autoridades da cidade colocando uma coroa de flores junto à estátua do fundador Baltazar Fernandes. Ela fica onde a cidade teve origem, diante da pequena igreja, que em, seguida foi doada aos monges beneditinos por ele mesmo, que contava com a sabedoria deles sendo distribuída aos futuros sorocabanos. Os monges ergueram junto a ela o mosteiro, que ainda está lá.

Em 360 anos tem-se muita história para contar.

Conta-se que, nos anos 50 do século passado, o artista plástico suíço, Ettore Marangoni, trabalhava na Companhia Nacional de Estamparia, uma da indústrias têxteis da cidade, criando desenhos para estampar os mais finos tecidos. Certa vez chegou à sua mão um livro sobre a história de Sorocaba escrito por Aluísio de Almeida; o artista europeu ficou encantado. Mais ainda quando soube, por meio de um vizinho, que Aluísio era um sacerdote,  que morava além da ponte sobre o Rio Sorocaba e se chamava Padre Luís Castanho de Almeida; Aluísio de Almeida era seu pseudônimo literário, sob o qual escrevia para os jornais e publicava livros sobre a história de sua cidade. 

Dizem que uma bela amizade aconteceu entre os dois, os livros de Aluísio viraram fonte de inspiração de Ettore, que,  com base neles e em extensa pesquisa, produziu vários quadros que hoje estão nos museus e locais mais relevantes da cidade. 


A obra que ganhou mais importância foi a  figura do fundador, Baltazar Fernandes. Com base na sua tela "Fundação de Sorocaba”, surgiram as feições da estátua do fundador e o selo comemorativo dos 300 anos da cidade. 





Nos dias de hoje, o povo da cidade demonstra toda sua evolução conseguida a partir da sabedoria recebida de seus antepassados, mostrando à toda cidade o que seus alunos do ensino público têm aprendido e cultivado: história e cultura por meio das muitas artes... Sorocaba continua uma cidade abençoada.









sexta-feira, 15 de agosto de 2014

São Tarcísio, por Bruno de Giusti, na Catedral de Sorocaba



15 de agosto é dia de São Tarcísio.  Sua história é contada pelo pincel do atista plástico ítalo- sorocabano Bruno de Giusti no retábulo de uma capela em sua homenagem na Catedral de Sorocaba.









A pintura chega a ser assustadora, mostra, de um lado, um adolescente, recebendo a partícula da Eucaristia para ser entregue a alguém, como é feito ainda hoje, quando ministros extraordinários da Santa Comunhão levam este Sacramento às pessoas que não podem comparecer à igreja. Porém, do outro lado, vê-se uma verdadeira cena de violência, esse mesmo menino sendo apedrejado. Impressiona muito as expressões dos rostos, tanto no do apedrejado, como nos dos apedrejadores.
           
São Tarcísio foi coroinha. Na nossa pesquisa, encontramos um texto da catequese feita pelo Papa Bento XVI no dia quatro de agosto de 2010, quando recebia um grande número de coroinhas, vindo de todas as partes do mundo. Ele contou que não se tem muitas informações precisas a respeito da pessoa de São Tarcísio; sabe-se que ele viveu no terceiro século da história da Igreja, que frequentava as catacumbas de São Calixto, em Roma, era muito fiel à Igreja e amava muito a Sagrada Eucaristia. Acredita-se que tenha sido um coroinha, como são chamados os pequenos acólitos que ajudam os padres na celebração das missas.
            
Naquela época, tempo do imperador Valeriano, os cristãos eram muito perseguidos e eram obrigados a se reunir secretamente nas catacumbas ou casas particulares para celebrar a Missa e ouvir a Palavra de Deus. Já era costume naquela época levar a Eucaristia a prisioneiros e doentes, e este trabalho estava se tornando cada vez mais perigoso.
            
Um dia, quando o sacerdote perguntou quem estaria disposto a levar a Eucaristia, o jovem Tarcísio ofereceu-se. Foi muito advertido do perigo que correria; era considerado muito jovem para tal função, mas ele estava muito confiante. O sacerdote, então, entregou-lhe as partículas de hóstia recomendando–lhe que se lembrasse de que portava um tesouro celeste e ele era muito frágil, que evitasse ruas movimentadas e protegesse com fidelidade e segurança os Sagrados Mistérios. Tarcísio diz que morreria se fosse preciso para defendê-lo.
            
Ao longo do caminho encontrou alguns amigos pagãos que o chamaram para se divertir. Diante da sua negativa, suspeitaram de que trazia algo valioso junto ao peito, que parecia defender. Tentaram arrancá-la, mas foi em vão; tornaram mais agressivos quando souberam que Tarcísio era cristão; então, chutaram-no e lhe atiraram pedras, mas ele não cedeu. Foi socorrido, já moribundo, por um soldado que, secretamente, era cristão. Já morto, ainda segurava um pequeno linho com a Eucaristia. Foi sepultado nas catacumbas de São Calixto. Pelo registro do Papa Damaso, Tarcísio morreu no ano 257. Seu dia é comemorado em 15 de agosto, data de sua morte marcada no Martiriológico Romano. - (Texto do nosso livro "A Arte Sacra de Bruno de Giusti - Comunicação e Cultura na Catedral de Sorocaba, inédito.)




15 de agosto, dia de Nossa Senhora da Ponte



Hoje, dia da Assunção de Nossa Senhora, é comemorado também o dia de Nossa Senhora da Ponte, padroeira de Sorocaba, que  completa 360 anos de vida pujante.

"A vida de religiosidade de Sorocaba começou em 1654 quando “Baltazar Fernandes, vindo de Parnaíba com seus genros e quatrocentos administrados índios, construiu no alto da colina à esquerda do rio Sorocaba, a capela de Nossa Senhora da Ponte que em 21 de abril de 1660, “divinitus”, divinamente inspirado, entregou, com um patrimônio de terras e pessoas, à Ordem civilizadora do Ocidente”, a Ordem dos Beneditinos. Aspas para o historiador-mor de Sorocaba, Aluísio de Almeida, o também sacerdote católico Monsenhor Luís Castanho de Almeida, no seu livro “A Diocese de Sorocaba e seu Primeiro Bispo”. A cidade de Sorocaba nasceu da construção dessa capela, que hoje é a Igreja de Sant’Ana, anexa ao Mosteiro de São Bento.

Segundo o historiador e jornalista José Benedito de Almeida Gomes, assim que a primeira capela foi doada aos beneditinos, logo em seguida começou-se a construir a nova igreja, a atual Catedral de Nossa Senhora da Ponte, e a antiga imagem veio para a Matriz.  A imagem de Nossa Senhora da Ponte que hoje está no altar mor  veio de Portugal em 1771.   A bela Catedral que os sorocabanos têm em nossos dias, no começo era uma igreja bem simples que foi recebendo acréscimos e adereços ao longo dos anos.”( trecho do nosso livro A Arte Sacra de Bruno de Giusti - Comunicação e arte na Catedral de Sorocaba- inédito) 

Mas, quem é, para o catolicismo,  Nossa Senhora da Ponte?

Ela é a ponte entre a nossa miséria de virtudes e a sabedoria Onipotente de JesusDeus, 
entre a nossa pobreza de méritos e a complacência divina, entre a nossa ansiosa carência de infinito e  o amor onipresente  de Deus.

Ela é a mãe sempre presente, a onipotência suplicante que promove e faz acontecer a nossa união com Deus, na qual nos tornamos saciados e plenos de vida como o bebê Jesus que mostra a imagem.

Este pode ter sido o sentimento que o sorocabano, padre Lúcio Floro, demonstrou na letra do canto que foi musicado por Ir. Miria T. Kolling:

Vou seguro e feliz pela vida
A esperança reluz no horizonte
É a luz dos teus olhos querida!
Minha Nossa Senhora da Ponte
Refrão:

Descobri quando ainda pequeno
De alegria no céu uma fonte
Teu sorriso de Mãe tão sereno,
Minha Nossa Senhora  da Ponte

Sempre ao ver em teu colo o Menino
Oh!, Permite Senhora que eu conte:
Tenho ciúmes do Filho Divino,
Minha Nossa Senhora da Ponte!

Se eu cair na peleja tão dura
Não permita que eu te desaponte
Vem erguer-me, que és Mãe e ternura
Minha Nossa Senhora da Ponte!

Sendo Mãe ser irmão tu me faças,
Teu amor o egoísmo desmonte
Oh! Vem dar-me esta graça das graças
Minha Nossa Senhora da Ponte

Quando enfim Deus chamar-me, esse dia!
Que o porteiro do céu lá me aponte:
Vem pro céu quem no céu já vivia,
Tanto amou a Senhora da Ponte!

Que cidade te aclame Rainha!
Te consagre este povo uma igreja
Eu só rezo sozinho que és minha!
Minha  Mãe, meu amor, assim seja!



segunda-feira, 28 de julho de 2014

Arte Sacra - Exposição “Ícone, uma janela para o Céu”

  

O Espaço São Bento, mais uma vez, está repleto de arte de alto nível.  Acontece lá a exposição “Ícone, uma janela para o Céu”, de arte sacra bizantina, originária da Rússia,  com  obras de dois expositores: Padre Almir Flávio Scomparini, sorocabano e pároco em Boituva, e a senhora Julieta Luvizoto Nicolau, paroquiana de Cerquilho. A exposição, cuja abertura aconteceu na noite de 25 último, fica até o dia três de agosto próximo, e faz parte das comemorações dos 90 anos de criação de nossa (Arqui) Diocese. 

 As obras, que ainda hoje são “escritas” usando as mesmas técnicas e materiais usados na era medieval, foram muito apreciadas pelas pessoas presentes na vernissage; mais ainda depois ouvir dos expositores, numa ilustrativa palestra, como cada mínimo detalhe é importante nessa técnica. Segundo os artistas, trata-se de um trabalho de ascese espiritual no qual se encontram o enlevo do espírito pela oração, a disciplina em aplicar as técnicas dentro de rigorosos trâmites e a aplicação dos dons recebidos de Deus dentro de um espírito de obediência às normas e critérios do estilo da arte, praticados da mesma maneira desde o século V. Tão importante, e talvez mais ainda, é o conhecimento acerca das verdades da fé, que são representados em incontáveis detalhes incluídos em cada obra. 

Causou admiração saber que cada obra é feita em uma placa de madeira maciça, revestida de um tecido de linho, que representa o sudário, ou o pano que acolheu Jesus depois da sua morte na cruz, ou quando acabara de nascer como ser humano. Em seguida são aplicadas 12 demãos de gesso, 12 é um número muito significativo para a nossa fé, 12 são os apóstolos, 12 as tribos de Israel… A partir desse ponto a obra passa a ser escrita. "Para o iconógrafo cada quadro é  a palavra de Deus em cores e formas”,  explica Padre Almir; segundo ele,  para a Igreja  Oriental o ícone é mais do que um recurso catequético da evangelização, é um sacramental. 

A pintura é feita, usando como têmpera gema de ovo, misturada a vinho branco, que  umedecendo diversos pós de minerais coloridos, fornecem a pigmentação. A folha de ouro é também muito usada.

Nossa Arquidiocese está de parabéns com tão elevado nível de arte, que Padre Almir e Julieta usam como riquíssimo meio de evangelização. Padre Almir, que dá paletas sobre essa arte também em outras Dioceses, ensina a tão encantadora técnica em Sorocaba, em aula semanais. Entre seus entusiasmados  discípulos estão Antônio Rodrigues Chagas, Silvia Gomes, Ana Cecília Furlan, Maria Cipriana e Elenice Oliveira Silva.


Exposição “Ícone, uma janela para o Céu"
Local: Espaço São Bento, no Largo São Bento
Data: de 28 de julho a 3 de agosto.
Horário de segunda a sexta: 9h- 18h; sábado 8h-12 e 17h-20h e domingo 8h-12h
Entrada franca

Padre Almir Scomparini
Julieta L. Nicolau






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Giselle Neves Moreira de Aguiar


sexta-feira, 25 de julho de 2014

São Tiago Matamoros e as guerras santas, ontem e hoje.


  A figura de São Tiago Matamoros, é um retrato da alma humana, cenário das batalhas mais violentas. Seus efeitos repercutem na vida material, onde acontece o derramamento do sangue biológico. Fato contagiante: a dor do conhecimento de fatos dolorosos impele à luta em defesa do que sofre. Primeiro acontecem as condenações, artilharia verbal que pode ofender atingindo o  sagrado alheio. Daí à agressão física é só um passo. A razão se perde, e fica somente o sentimento de aversão que causou a dor, aparentemente justificando a violência. Loucura. Não apenas parece ser, é loucura é profundamente humana.

É da natureza, o instinto de autopreservação.  O desprezo da vida biológica é sinal de anomalia, uma anormalidade, que pode ser doença emocional ou santidade, que é o  interesse pelos valores espirituais a tal ponto de desprezar os prazeres da vida biológica por viver a cultivar os do espírito, que sabe ser imortal.

A vida humana é considerada especial em relação aos outros tipos de vida porque o humanos têm características que os permitem escolher e determinar os acontecimentos que compõem a sua própria existência. 

A história da humanidade  confirma que os humanos nascem em comunidades, cujos valores e paradigmas são passados de geração em geração, de maneira que o conjunto deles determina a identidade de um povo ou etnia. 

Fora do seu habitat natural um ser humano padece mais do que normalmente sofrem os outros animais. Ele tem necessidades emocionais e intelectuais que dependem dos valores e paradigmas entre os quais se desenvolveu e pautou o seu crescimento. Tais necessidades são tão importantes que mesmo quem nasceu e cresceu em outro ambiente diferente do dos seus ancestrais, sente um tipo de nostalgia que uma psicanálise pode dizer que se trata de um calo na alma, algo que não chega da doer, mas que se faz presente, lembrando um hábito de vida que marcou indelevelmente o indivíduo que, de alguma forma, sente sua falta.

A história conta também que ao longo do seu acontecer, os povos interagem entre si, por meio do comércio, relações diplomáticas e, às vezes, beligerantes. Na antiguidade eram movidos por amor ao próprio modus vivendi, que, intrinsecamente, cada indivíduo acreditava que o seu fosse o melhor de todos, ou pior ainda, que o seu seria o único válido e que todas as outras maneiras de ver a vida seriam falsas. Da maior ou menor intensidade desse sentimento humano dependia o relacionamento entre os povos. Os que se sentiam mais fortes, eram impelidos a dominar belicosamente os considerados ignorantes e fracos a seu redor, enquanto impunham seus valores e culturas sobre os dominados, que debatiam o quanto podiam para defender seu território e a liberdade de viver segundo  seus próprios critérios.

 A observação de cada etapa do tempo linear da história faz notar que os tipos de comportamento dos povos em relação aos outros só variam pelos tipos de armas usadas. Os sentimentos que os impelem são sempre os mesmos: o do mais forte querendo dominar e ampliar sua área de conforto para fortalecer suas características e a do  agredido querendo se defender para continuar a existir. Continua até hoje o velho instinto de autopreservação natural, que nos seres humanos é mais abrangente do que nos outros animais. 

Quanto mais o tempo passa mais evolução acontece e as armas vão se tornando mais sofisticadas, mas continuam provocando dor e muito sofrimento aos seus alvos. Também, os seres humanos foram, aos poucos, descobrindo que o que os movia belicosamente era o conjunto de valores invisíveis que  tinham em comum, o que fazia deles um povo. Valores que só a alma humana pode avaliar.

Assim, as guerras foram acontecendo por motivos claramente espirituais, os religiosos, os mesmos que defendiam os humanos da própria violência, os que lhes davam a transcendência do invisível, os que os tornavam melhores aos próprios olhos: os valores que condenam a violência e proíbem matar porque consideram a vida sagrada.

 Nesse ponto da história, formado de um longo período, surge a esquizofrenia, que dissocia o pensamento e sentimento da ação praticada. Quando o amor aos valores mais sublimes impele os humanos à guerra. 

As guerras religiosas são as guerras mais humanas, quando o instinto de sobrevivência se torna forte e impulsiona os indivíduos que formam um povo  a atacar a quem os deseja destruir, para, pelo menos, morrer lutando, honradamente por algo que valha mais do que a vida biológica. 

 Essas premissas são necessárias para entender os habitantes da Espanha, que no século IX, vendo sua terra invadida e dominada pelos mouros islâmicos, que além de entrar nas suas igrejas e catedrais à cavalo, profanando seus lugares sagrados, exigiam um tributo de cem donzelas dos habitantes do lugar.  Diante da agressão e ofensa ao que tinham de mais sagrado, os espanhóis invocaram o auxílio de um apóstolo de Jesus Cristo, São Tiago, cujos restos mortais haviam sido descobertos na  sua terra anos antes. A tradição  diz que o santo teria aparecido em batalha, num cavalo branco, com uma espada na mão incentivando  os cristãos à luta, vencida na famosa batalha de Clavijo, a partir da qual os invasores foram expulsos. Desde então surgiram as imagens de "São Tiago Matamoros"

 Atualmente, quem vai à Compostela e vê a grande imagem do Santo, sobre o cavalo, a atingir pessoas com golpes de lança, fica no mínimo assombrado com a violência e incoerência da cena, e é capaz  de imaginar coisas horríveis acerca dos cristãos antigos e sua fé. Mas, quem procura tecer a narrativa da vida com a linha do tempo, pode compreender o que sentem os protagonistas das violentas cenas de guerras que acontecem hoje no Oriente Médio entre judeus e islâmicos e  no Iraque, com o massacre dos cristãos que, por sua vez, agiam da mesma maneira, nas devidas condições: movidos pelo sentimento de ameaça da perda de algo mais valoroso que a vida biológica. 

O escritor inglês, G. K. Chesterton define bem esse sentimento tão humano  que se mantém intacto ao longo de décadas, séculos e milênios, por mais que queiram dissimulá-lo ou lhe dar outras conotações: “O verdadeiro soldado luta não por ódio ao que tem pela frente, mas por amor ao que tem por detrás.”

Enquanto as guerras e lutas forem pelo sagrado, ainda há esperança para a humanidade. Quer dizer que ainda há algo, imensurável por meios materiais, por que vale a pena lutar. Pior que  tais guerras, é a sensação falsa de conforto e prazer difundida por quem deseja dominar mentes corações pela mera sensação do próprio poder;  por esse modo, a humanidade toda estaria já como os habitantes da "Matrix"…

Giselle Neves Moreira de Aguiar