segunda-feira, 5 de dezembro de 2016

Ordenação Presbiterial dos Padres: Carlos Roberto Gonçalves, Júlio César Batista e Reinaldo Vitor Satiro



No dia três de dezembro de 2016, aconteceu a Santa Missa de ordenação presbiterial dos Padres Carlos Roberto Gonçalves, Júlio César Batista e Reinado  Vitor  Satiro, presidida por Dom José Negri, PIME, Bispo Diocesano de Santo Amaro.

Os três novos sacerdotes pertencem à família religiosa do Instituto Verbo Encarnado.



 Eis os seus lemas sacerdotais, os pensamentos que irão nortear o sacerdócio de cada um deles:


O Padre Carlos Roberto Gonçalves , para escolher seu lema: “ Ser simples como uma criança, e forte como um mártir” se inspirou em São José Sanchez Del Rio, o menino mexicano que foi martirizado em 1928, por defender a fé católica durante  a perseguição religiosa no México:

Oração a São José Sanchez Del Rio
Senhor Deus que outorgastes a palma do martírio a São José Sanchez Del Rio, ao professar e defender com seu sangue a fé em Cristo Rei do universo. Concedei-nos por sua intercessão, alcançar a graça de ser como ele, fortes na fé, seguros na esperança e constantes na caridade. Por Cristo Nosso Senhor. Amém.



O Padre Reinaldo Vitor Satiro, IVE escolheu como lema “ Bem-aventurados os mansos porque possuirão a terra”. Buscou o modelo de amor e confiança filial de São João Paulo II, à Santíssima Virgem , Mãe de Deus:

Oração do Papa João Paulo II à Nossa Senhora Aparecida
Mãe de Deus e nossa, protegei a Igreja, o Papa, os Bispos, os Sacerdotes e todo o povo fiel: acolhei sob vosso manto protetor os religiosos, religiosas, as famílias, as crianças, os jovens e seus educadores!
Saúde dos enfermos e Consoladora dos aflitos, sede o conforto dos que sofrem no corpo e na alma; sede luz dos que procuram Cristo, Redentor do homem; a todos os homens mostrai que sois a Mãe de nossa confiança.
Rainha da Paz e Espelho de Justiça, alcançai para o mundo a Paz duradoura, que os homens convivam sempre como irmãos, como filhos de Deus!  Nossa Senhora Aparecida abençoai o Brasil. Amém.


E o Padre Júlio César Batista, IVE escolheu como lema; “ Dar-vos-ei pastores segundo o meu coração, os quais vos apascentarão  com inteligência e sabedoria” - ( Jr 3,15)


Aqui podemos notar como a devoção ao Sagrado Coração de Jesus, cultivada pela sua abençoada família sob as orientações da nossa querida Lola foi determinante na sua vocação. Ele escolheu ser um sacerdote segundo o Sagrado Coração de Jesus, conforme o desejo da Lola para todos os sacerdotes. A oração do seu cartão de recordação traz a oração rezada e recomendada pela Serva de Deus Floripes Dornelas de Jesus:

Oração ao Sagrado Coração de Jesus
Sagrado Coração de Jesus, derramai Vossas largas bênçãos sobre a Vossa Igreja. Sobre o Santo Padre e todo o clero!
Dai aos justos, perseverança,  convertei os pecadores, iluminai os infiéis, abençoai os nossos parentes, amigos e benfeitores, salvai os moribundos, livrai as almas do Purgatório, e estendei sobre todos os corações o doce império do Vosso santo amor! Assim seja!

A seguir alguns momentos da celebração:


O altar da linda Igreja de Nossa Senhora Aparecida e Santo Expedito, no bairro de Colônia Paulista, São Paulo, SP.



A igreja repleta de fiéis:



A entrada:



Eleição dos candidatos.
A Igreja apresenta os candidatos ao Presbiterato pedindo que sejam admitidos ao segundo grau da Ordem Sagrada. Este é um chamado pessoal semelhante ao que Cristo fez aos Apóstolos: " Depois subiu a montanha chamou os que ele quis, e foram até Ele" (Mc 3,13) (*)



O propósito dos eleitos
Ao serem interrogados, os candidatos ao Presbiterato manifestam publicamente seu propósito de seguir este chamado pessoal de Cristo, em favor de sua Igreja. (*)

Promessa de obediência
Neste momento os candidatos fazem sua promessa de obediência e de doação total de si mesmos à vontade de Deus através de seus superiores.(*)

Aqui, o Padre Carlos Roberto Gonçalves faz a sua promessa.

Aqui, o Padre Júlio Cesar Batista.

E aqui, o Padre Reinaldo Vitor Satiro.

Ladainha de Todos os Santos
(Os eleitos ficam prostrados e o povo de joelhos)

Unindo-nos à Igreja triunfante, peçamos agora por estes nossos irmãos a intercessão daqueles que seguiram a Jesus Cristo sem desistir, amigos de Deus e dos homens, que pela caridade chegaram "ao estado do homem perfeito, à estatura de Cristo em sua plenitude." (Cf. Ef 4,13) (*)





Imposição das mãos e prece de ordenação
Pela imposição das mãos e preces ordenação feitas pelo Bispo, é conferida aos candidatos a dignidade de Presbíteros. (*)








O Padre JoãoFrancisco, pároco da Paróquia de São Manoel, em Rio Pomba, MG, paróquia de origem do Padre Júlio, impõe suas mãos, abençoando  o novo sacerdote

Vestição sacerdotal

Neste momento, os neo-sacerdotes são revestidos com os paramentos sagrados. Levando a estola da imortalidade e a casula da caridade, eles experimentam o doce e suave jugo de Jesus Cristo.(*)



Unção das mãos

As mãos que possuem o poder de fazer Cristo presente em cada Santa Missa e de perdoar os pecados, são consagradas ao serviço exclusivo de Deus mediante a unção com o Santo Crisma. (*)







A primeira pessoa abençoada pelo Padre Júlio foi sua irmã de sangue e de congregação, a Irmã Leléia, que também, com grande pesar, representava sua mãe, Marina, que não pôde estar presente por estar cuidando de sua mãe (avó deles), que se encontrava enferma.








A entrega do cálice e da patena (pão e vinho)
Os ordenados recebem das mãos do Bispo o cálice e a patena, para que celebrem o sacrifício do Verbo Encarnado. Na vida devem ser por Ele, com Ele e n'Ele, uma hóstia branca, frágil, sem mancha, forte, somente em Deus.







Saudação da Paz
Com a saudação da paz, o Bispo e os sacerdotes recebem os novos presbíteros como irmãos, unidos no sacramento da Ordem, expressando, assim, a unidade que Cristo quis para sua Igreja.(*)







Os novos sacerdotes no presbitério



No ofertório, a presença dos amigos e parentes que vieram de longe, cheios de grata emoção.



 A presença do  pequeno Leo, que participava com entusiamo da celebração.

 A Oração Eucarística com a primeira participação dos novos sacerdotes.










A cerimônia do beija mãos
Através da qual se obtém indulgências, segundo a tradição da Igreja.(*)

Beijar as mãos do novo sacerdote significa beijar as mãos de Cristo,  a serem usadas na produção dos sacramentos que são sustento e remédio para a nossa vida.








Conterrâneos de Padre Júlio na fila para o para o beija-mãos





Não há sacerdote sem sacrifício, nem sacrifício sem sacerdote. Unamo-nos aos nossos neo-sacerdotes na oração, pedindo que possam ser fiéis ao compromisso assumido diante de Deus apara celebrar a Eucaristia em favor da Igreja. (*)


 (*) Todos os itens assinalados com (*) tiveram como fonte o livreto distribuído  para o acompanhamento da celebração.


Veja todas as fotos da solenidade nos álbuns do Flickr:

Ordenação sacerdotal e

Ordenação sacerdotal 2


terça-feira, 8 de novembro de 2016

Arte Sacra, quando o passar do tempo não traz a evolução.


No próximo ano, em 2017, completa-se 300 anos do “aparecimento” da pequena imagem de Nossa Senhora da Conceição, na rede de pescadores, naquele local do Rio Paraíba.

A imagem da Mãe de Jesus, tornada negra por ter estado  durante  longo tempo no leito do rio, teve grande significado para os cristãos daquela época, quase todos católicos: chegava o tempo em que a evolução, especialmente a espiritual, não podia  mais suportar que seres humanos fossem escravizados. Tal "aparecimento" foi um forte sinal de que a escravidão deveria ser abolida. A Mãe não podia suportar que alguns de seus filhos escravizassem a outros. Todo esse simbolismo faz parte de tudo o que encerra o Santuário Nacional de Aparecida.

Dizemos “faz parte” porque o simbolismo principal está no sentido do templo em si mesmo: um lugar em que filhos de Deus se reunem, a casa da Mãe. Lugar de viver a realidade do amar a Deus sobre todas as coisas, onde os que se sentem filhos da Mãe de Deus se vêem habilitados a prestar culto ao Todo Poderoso, criador de tudo o que existe.  Criador também do que está além do pequenino entendimento humano, do que ele não pode alcançar, entender e conhecer enquanto estiver nesta vida: aquilo de já usufruem os que nos antecederam, por não dependerem mais do corpo, esse aparelho biológico onde nossa alma é gestada para a eternidade.

A  importancia da arte sacra

Tendo isso como importante,  o principal fator a ser considerado numa obra para que seja considerada sacra(sagrada) pelo catolicismo deve ser  que funcione como um cordão umbilical, unindo gerações de almas católicas a Deus. O mesmo, o Trino, do qual Jesus Cristo é a Segunda Pessoa, e que, continuando sendo Deus, se encarnou no seio da Virgem Maria e se tornou também humano. Ele, que demonstrou, com sua vida, que era a Pessoa prometida, da qual falavam os profetas do Antigo Testamento da Bíblia. Foi quem fundou o que hoje é a Igreja Católica Apostólica Romana, que vive sua inalterável doutrina, revelada pela Sua Própria Pessoa Divina. Qualquer alteração na mesma significa considerar que Jesus Cristo não é Deus, uma vez que fizera algo passível de correção.


Importa muito, na arte sacra, a manutenção da continuidade do espírito de filiação divina, concedido a todos os que aceitam Jesus Cristo como Redentor, O que liberta de tudo o que afasta o ser humano de Deus, fonte de todo Bem. Mais ainda, também, no catolicismo, a filiação da própria Mãe de Deus, oferecida por Jesus, na Cruz, minutos antes de morrer para depois ressuscitar.

As pinturas e esculturas iconográficas têm o papel de transmitir efeitos nas almas das pessoas que são impossíveis de serem traduzidos em palavras. Assim como a música. Desta maneira, as artes são instrumentos muito eficazes na divulgação da doutrina, da fé, uma vez que falam diretamente ao espirito das pessoas, que os sintonizam com os mesmos sentimentos que seus ancestrais sentiam diante de  determinada arte pictórica, ou de uma escultura, nas igrejas católicas. Portanto, tais artes, possivelmente, podem até ter mais valia do que várias aulas de catecismo.

Importa, a elas,  passar o sentimento cristão, o mesmo que movia Jesus Cristo, sua  Mãe e seus apóstolos. Sentimentos que fizeram chegar a nós a doutrina do Cristo. Importa passar o Amor em seus detalhes. Cada pessoa assimila o que a toca mais profundamente. Uma obra de arte sacra haverá de ter rica diversidade de detalhes, para uma rica variedade de observadores, dentro do mesmo espírito.

Condições especiais necessárias ao artista

O artista sacro precisa deter qualidades especificas, além das  que acompanham outros artistas plásticos. Ele tem que se tornar apenas veículo da transmissão de uma conversa entre Deus e cada um dos mais distintos fiéis, ao longo de  todo o  futuro da sua obra. Como um catequista, ele não pode mudar o conteúdo do que transmite. Sua fidelidade é si ne  qua non. A falta dela compromete a obra a ponto de não poder ser considerada arte sacra católica.

Realizar uma obra para uma igreja requer um grande e profundo conhecimento da doutrina e da história da Igreja Católica. Um conhecimento não só teórico, mas também empírico, ou seja, se não for uma verdadeira pessoa de oração, se não tiver constante sintonia espiritual com Deus e com seus filhos, a pessoa não conseguirá, jamais, realizar uma autêntica arte sacra. Essa mesma característica que se mostra fortemente presente na arte sacra bizantina, é imprescindível também no Ocidente.

As obras de decoração das igrejas católicas  precisam obedecer a uma grande harmonia, tanto nas formas plásticas como na suavidade da mensagem que cada uma transmite, como se viesse diretamente de Deus para cada observador, com a exclusividade própria de Quem é onipresente. Havemos de convir que Deus, o Ser Perfeito, não admitiria nenhuma aberração das suas próprias leis, especialmente as que regem a psicologia humana, o que nos leva a concluir que, numa igreja, uma pintura, ou outra forma de arte, não pode, de maneira alguma, incomodar, causar desconforto, à natureza humana.

Influência modernista


Infelizmente, nas últimas décadas a arte sacra tem sofrido grande influência das correntes modernistas, o que, no nosso  humilde parecer de simples fiel, é algo doloroso. Parece que os conceitos modernos e laicos invadiram as igrejas trazendo belas e valiosas obras, mas que são,  de certa forma, divorciadas do espírito religioso e do sentido divino.

Falando acerca de uma obra de Matisse, a especialista em Semiótica, Lúcia Santaella, diz algo que vemos espelhado  em certas obras de arte sacra mais recentes: 

“...todos os elementos ficam reduzidos a formas muito elementares, quase infantis, não fosse a inteligência visual dos recursos sutis utilizados na composição do todo. A ambiguidade referencial não é sem consequências, uma vez que o poder representativo fica no nível de pura sugestão, a pintura acaba por chamar a atenção para si mesma como pintura, para aquilo que faz dela uma pintura: cores, traços, linhas, volumes, contrastes, texturas, etc. Isto é, chama atenção para suas qualidades internas, para seu lado puramente icônico, pois tudo o que diz respeito ao poder de referencialidade das imagens, o reconhecimento e a identificação daquilo que ela se refere já desliza para seu lado indicial. Ao dificultar o reconhecimento e identificação, ao suspendê-los, essa pintura cria uma demora icônica.” (1)

Quando  tais caraterísticas aprecem em obras de arte dentro das  igrejas, o ego do artista se sobrepõe ao ethos da Igreja, que o contratou. Outras mensagens são transmitidas no lugar da que seria a ideia principal; e nas "demoras icônicas" em se chegar ao foco da mensagem, o observador recebe outras, secundárias, que acabam "roubando a cena". 

Isso talvez possa explicar o desconforto que sentimos quando vemos um crucifixo com o Cristo disforme, mais parecendo um possível extraterrestre do que um ser humano. Também diante de traços orgânicos, reduzidíssimos, para expressar figuras de Jesus, Maria e José.

Nós, os mais velhos, podemos, com os recursos de que dispomos, adquiridos de outras obras sacras, usar a imaginação, diante de uma obra neomoderna  e identificar Jesus Crucificado em um metal derretido e  solidificado de maneira amorfa, apesar da impressão que fica, de, no fundo, pensar que o artista não soubera realizar o que pretendia. Mas, e os mais jovens? E as próximas gerações? 

A importância dos detalhes

A preocupação aparece quando vemos que os sentimentos, os retratos das almas, dos representados, que  são tão evidentes  nas  obras de El Grecco, com suas formas bem estilizadas, quanto nas de Fra Angélico, não fazem parte dos novos trabalhos de arte sacra. Impressiona a inexpressividade das mesmas.

 Menino Jesus, detalhe da obra "Sacra conversazione", afresco  de Fra Angélico, de 1443,  no Convento de San Marco, em Florença, Itália.


                   Lágrimas de São Pedro,  de El Greco, 1596, na Catedral de Toledo, Espanha.

Existem pessoas de vasto conhecimento na vida católica, e que, portanto, dão grande importância aos fundamentos da arte sacra, que chegam a dizer que as obras modernas nas igrejas conferem às mesmas uma aparência de banheiro, de tão clean que chegam ser, desprovidas quase totalmente de adornos significativos.
  
 Os perigos para a fé

Os desenhos dos afrescos ou mosaicos nas igreja modernas são cada vez mais reduzidos  e pobres em traços, em detalhes. Quando faltam os detalhes, e eles são apenas insinuados, sua observação é menos dolorosa do que quando os traços e detalhes são feitos apenas segundo o gosto pessoal do artista, e se tornam perigosos quando lhe faltam conhecimento e vivência de catolicismo. Nesse caso, o  resultado  pode até chegar a ser ofensivo.

Um dos primeiros trabalhos do talentoso Claudio Pastro, falecido recentemente,  que  era reconhecido como o mais importante artista sacro do momento, sendo responsável pelo acabamento do Santuário Nacional de Nossa Senhora Aparecida, em Aparecida, foi realizado na igreja do Rosário em Sorocaba, SP. Em um grande painel dividido em 15 quadros do mesmo tamanho, ele representa os mistérios gozosos, dolorosos e gloriosos do Rosário.  Esta é a oração de meditação mais popular dos católicos;   compreende a oração do Pai Nosso e de dez Ave Marias enquanto se contempla mentalmente os mistérios da Encarnação, da Paixão e da Ressurreição, Ascensão e Glória de Jesus Cristo.




No painel de Pastro, quase todas as figuras de cada quadro têm a mesma feição e o mesmo tom de pele. Chama muito atenção os mesmos olhos, as mesmas bocas, a mesma forma de rosto, sejam em Jesus Menino, nos momentos da sua Paixão e nos da sua Glória. Esses mesmos traços são vistos também em Nossa Senhora, em São José, nos Anjos e até em São Bento e Santa Escolástica num outro painel à direita. A falta de expressão e principalmente de identidade dos representados passa a impressão de que apenas se mostrou as personagens, identificadas apenas pelas vestes e pelo cenários só insinuados. Faltou contar a história… Pelos menos para as pessoas mais simples. 



O que mais dói ao observar o gigantesco painel é o quadro que representa a Assunção de Nossa Senhora, no quarto mistério glorioso, bem no alto.  Ele mostra Nossa Senhora rígida, inerte, deitada como um defunto (neste quadro ela está de olhos fechados) carregada por um anjo dotado da mesma inexpressiva feição que aprecem nos outros quadros. Ali temos um grave erro de fé. Nós católicos não podemos conceber que o cadáver inerte de Nossa Senhora tenha sido “roubado” da sepultura por um anjo. Para nós ela foi elevada ao Céu, no mais elevado grau de vivacidade e de santidade que  um  ser humano  comum jamais poderia alcançar, ainda que fosse santo.  O desconforto é tanto ao olhar, que chega o coração a doer. O que deveria ser um homenagem se transforma numa ofensa. 



Causa tristeza verificar que influências como essa fazem seguidores, e como consequências temos igrejas cada vez mais distantes do verdadeiro espírito católico. Acontece muito vermos imagens estereotipadas  de Jesus Cristo  que acabam sendo aplicadas ao sentido da Sua Igreja.

 A sensação que se tem é que  ao invés da Igreja contaminar o mundo com seu espírito, observamos o mundo profano em franca incursão dentro da Igreja. Exatamente o contrário do que nos diziam pretender o Concílio Ecumênico do Vaticano II. 

Consequências do "excesso de redução"

O efeito prático do reducionismo pode ser visto nas transmissões das Missas pela TV Aparecida. Quando a câmera  foca as pessoas assistindo à Missa, pode-se ver nos olhos delas a emoção de se estar naquele lugar; quantos vieram de tão longe e consideram que aquela talvez seja a única vez que estará naquele lugar. Os olhares transbordam emoções que contrastam com cenário frio, clean, onde não se encontra abrigo para sentimentos tão quentes trazidos nos corações.  Quem tem o coração borbulhando de emoção por estar na casa da Mãe, onde esperava ancorar todas as suas esperanças e ter fortalecido e confirmado seu coração na fé, o objetivo da sua romaria, sente um inexprimível desconforto ao posar os olhos num crucifixo onde o Cristo não parece ser humano.  O lindo e suntuoso ambiente não combina como o povo de coração humilde que ali vai, e menos ainda com a rústica e pequenina imagem da Mãe   que se torna desAparecida no meio de gigantescas e lindas pinturas tão modernas.  

O reducionismo das formas das pinturas e dos mosaicos passam uma mensagem que  ficam muito a dever  às expectativas  de um olhar amorosamente cristão. Ao contrário, muitas vezes a pessoa se sente ofendida por ver seu Deus e sua Mãe, assim como os anjos, de quem se sabe que suas aparências são tão sublimes que estão  acima do entendimento humano, reduzidos a poucos traços, como se  não fossem dignos de que o artista perdesse mais tempo se esmerando na elaboração de suas imagens. Isso porque espera-se que um artista sacro tenha imaginação e destreza suficientes para elaborar imagens que contenham, que superem as imagens que uma pessoa mediana possa compor interiormente.

Quem procura uma imagem sacra, procura algo que transcenda sua própria imaginação. Algo que ajude a transcender. “ Somos feitos assim imaginativos e precisamos das imagens para poder ir além delas.” (2)

Quando os olhos passam  por  figuras que pretendem apenas insinuar algo que se tem como Santo, pode-se chegar à conclusão que tais  desenhos não sejam, realmente necessários, uma vez que para receber a mensagem proposta é preciso que o observador coloque muito de si em termos de imaginário. Nesse caso, a imagem insinuada pode até atrapalhar, ao invés de ajudar na contemplação e recolhimento necessários num ambiente de oração.

As imagens deveriam elevar o espírito, no entanto, a maioria das obras modernas  realizam o contrário, reduzem, prendem os seres humanos aos seus parcos recursos enquanto demora para decifrar o que quer dizer aquela imagem. Tais imagens valorizam as aptidões puramente humanas, que dependem do aparelho biológico, em detrimento do aspecto espiritual  comum a todos seres humanos. 

 Como está hoje, a apreciação das artes sacras em muitas igrejas ficam restritas a uma elite cada vez menor, a dos entendidos de arte, o que vai de encontro ao seu objetivo que é falar diretamente ao espírito das pessoas dos mais diversos perfis, dos quais as mais simples compõem a imensa maioria.  
Infelizmente isso tem acontecido em grande escala por conta do ‘modismo' que se instalou nos nossos templos. Um modismo que empobrece o espírito,  apesar do real e grande valor artístico  que acompanha cada uma de tais obras. Mas elas não são apropriadas para o ambiente em que estão, não atendem às necessidades específicas da decoração de uma Igreja Católica Apostólica Romana. Estão em desacordo com o seu ethos.

 Antes da, recente, grande mudança


A Basílica de Nossa Senhora Aparecida é um projeto do renomado arquiteto Benedito Calixto, que também era artista sacro. Suas telas podem ser vistas na igreja de São João Batista, em Bocaina, Sao Paulo. Nelas podemos observar a riqueza de detalhes que enriquecem a alma de quem os contempla. 




 Obras de Benedito Calixto na  Igreja de São João Batista em Bocaina fotos do site:www.geocities.ws/teregregori50




Um importante antecessor de Claudio Pastro na arte sacra do interior paulista foi o italiano radicado em Sorocaba, Bruno de Giusti.  Várias igrejas do Estado de São Paulo e também na cidade do Rio de Janeiro, possuem lindas obras do artista, formado pela Escola de Belas Artes de Veneza. Seguindo a influência  de Michelangelo, gostava de colocar nas suas telas e afrescos rostos e pessoas da comunidade nas figuras que completavam as cenas. Essa era uma característica que mais ainda enriquecia seu trabalho, ao adicionar a história do lugar nas suas pinturas. Fazia delas uma espécie de link que unia a história da Igreja, sua fé e sua doutrina, com a história do lugar, no tempo em que foi  realizada. Seu trabalho é considerado patrimônio artístico  e cultural das cidades em que se encontram, nas quais o povo sente orgulho de possuí-lo.






 Obras de Bruno de Giusti,  na Catedral de Sorocaba, 1948



Porém, um dos seus últimos trabalhos, realizado na Igreja da Vila Arens, em Jundiaí, SP, ele extrapola quando, além das feições das pessoas da cidade, vestiu as personagens da época dos fatos retratados com roupas de modelos do tempo em que foi pintado. Embora isso o tenha marcado como artista, o propósito de tal obra ficou comprometido. 

O que diz a Santa Sé:

"Obras de arte inspiradas pela fé, pinturas e mosaicos cristãos, esculturas e arquitetura, marfins, pratas, poéticas, literárias, musicais e peças de teatro, cinema e dança, etc.- possuem um enorme potencial pertinentes às necessidades contemporâneas que permanecem inalterados pelos tempos que passam. De uma forma intuitiva e de bom gosto, eles permitem a participação na grande experiência da fé, do encontro com Deus, na face de Cristo em quem ele descobre o mistério do amor de Deus e a identidade do homem.

Ao falar com os artistas na Capela Sistina 07 de maio de 1964, o Papa Paulo VI denunciou o "divórcio" entre a arte e o sagrado que caracterizou o século 20 e observou que hoje muitos têm dificuldade em tratar temas cristãos, devido à falta de formação e de experiência da fé cristã. A feiúra de algumas igrejas e sua decoração, a sua dessacralização, é a consequência deste divórcio, uma laceração que precisa ser tratada, a fim de ser curada.

 Há uma necessidade de resolver a ignorância generalizada no campo da cultura religiosa, de deixar a arte cristã do passado e a do presente se abrirem para toda a via pulchritudinis . Para serem totalmente ouvidas e compreendidas, as obras de arte cristãs precisam ser lidas à luz da Bíblia e dos textos fundamentais da Tradição à qual experiência da fé se referem. Se a beleza  fala por si mesma, ela deve aprender a sua própria língua para  causar admiração, emoção e conversão. Com a linguagem da beleza, as obras de arte cristã não só transmitem a mensagem do artista, mas também a verdade do mistério de Deus meditada por uma pessoa a traduz para nós, não para glorificar a si mesmo, mas para glorificar a Fonte. O analfabetismo bíblico esteriliza a capacidade de compreensão da arte cristã.

Um esforço combinado devem ser feito para superar uma dificuldade que surgiu devido ao clima cultural alimentada pela crítica de arte amplamente influenciada por ideologias materialistas. Destacando apenas o aspecto estético-formal dos trabalhos, sem interesse pelo conteúdo que inspirou tanta beleza, tais ideologias esterilizam a arte decorrente do fluxo vital da vida espiritual, limitando-a ao mundo das emoções." (3)   

A imagem da Pietá, Nossa Senhora da Piedade, de Michelangelo na Basílica de São Pedro, em Roma, sempre será  um norte para a arte sacra católica, enquanto a humanidade puder conservá-la. O espírito de quem procura  Deus, que criou o mundo e que se mostrou perfeito em cada detalhe da sua criação, não consegue aceitar menos do que o melhor, quando se trata de algo que se refere a Ele. A arte sacra é, antes de tudo,  algo sublime. 





(1) - Santaella, Lúcia - Semiótica Aplicada. São Paulo: Pioneira Thompson Learning - 2005. pg. 91-92. 

(2) - Régamey, R-P., O. P. - Arte Sacra Contemporânea  - Herder editora - São Paulo - 1965

(3) - A Via Pulchritudinis - Documento final da Assembléia Plenária de 2006 do Conselho Pontifício para a Cultura.