domingo, 26 de janeiro de 2014

Ruídos como Comunicação



                                  

Depois de aposentada, filhos casados e independentes, Marina resolveu investir tempo e dinheiro num segundo curso universitário. Dessa vez seria Comunicação Social, com ênfase em Jornalismo. Desde menina adorava jornais, a princípio só as tirinhas, depois os cadernos culturais e ultimamente andava preferindo as colunas de política e economia. Parecia ter ganhado outra vida, como num game; estava, de novo, na condição de aluna. Era deliciosamente confortável voltar a chamar professores de senhor e senhora, ainda que alguns pudessem ser seus filhos. A ideia de se submeter intelectualmente, de aprender, a encantava.

Na grade do primeiro semestre havia uma disciplina que a atraía sobremaneira: Comunicação, Cultura e Arte.  Antevia aulas espetaculares dadas por professores apaixonados pelo assunto. Gente culta, de cabeça aberta, que encantaria os jovens debulhando o concreto da cultura humana permeada de contínuas manifestações de arte, em todos os segmentos de atividades. 

Mas qual foi o seu espanto quando, no primeiro dia da aula dessa disciplina, o professor, excluindo todo tipo de modéstia, dizia enfático,  que era doutor em Comunicação, que lia um livro por dia, era, portanto, aos seus próprios olhos, um primor de sabedoria.  Obrigou a comprar uma apostila com diversos textos, todos de fundamento marxista, muitos deles sem mencionar o autor e um deles dizendo que os judeus deveriam ser exterminados. Disse que era comunista, porque o comunismo era “contra o egoísmo”. Com argumentos infantis, o “doutor” dizia, falando sobre cultura (que para ele era apenas a “opressão do colonizador sobre o colonizado”), que até as ruas da Europa são calçadas com pedras roubadas da América Latina, que os saxões são maus e os latinos bons, além de outras coisas consoantes com tal repertório.

Numa aula sobre o cinema americano, um professor, apresentando um dos primeiros longa-metragens produzidos, ao invés de chamar a atenção para o talento usado com tão parcos recursos, evidenciava o que chamava de competição entre um trem e uma carroça, que acontecia na tela.  Quanta maldade, disse ele, um trem apostando corrida com uma carroça! Noutras palavras, os ianques, os que produzem as novas tecnologias são pessoas maldosas.

Determinadas disciplinas eram totalmente politizadas, nelas praticamente não havia aula de conteúdo, apenas política marxista e crítica, críticas e mais críticas a todo e qualquer tipo de produção. Os professores de tais matérias se sobressaíam, enquanto que os que passavam as aulas ensinando apenas o conteúdo de suas disciplina eram menos valorizados.

Uma professora apresentou um filme visando uma resenha.  Na preleção disse que já havia assistido o filme mais de 20 vezes, todas as turmas deviam assisti-lo. O filme é Cidade do silêncio, dirigido por Gregory Nava, em 2007

O objetivo, ficou claro, era induzir a culpa ao livre comércio por todos os horrores do mundo, entre eles o estupro e morte de mulheres no México. Ainda que o filme pretendesse fazer acreditar que, apesar da polícia informar que 375 mulheres tivessem sido estupradas e mortas, na realidade seriam cerca de 5000, e que os estupradores e assassinos eram um figurão e um motorista de ônibus.
         
Muitas perguntas podem fazer sobre a película uma senhora beirando os 60 anos, mas estão longe da percepção de quem ainda não tinha 20 anos, tais como:

Seriam esses dois criminosos superdotados, a ponto de, sozinhos, estuprar e matar 5000 mulheres?

 Um depósito de cadáveres, percorrido pela heroína do filme, não causaria um cheiro insuportável que o fizesse ser descoberto?

Se as fábricas não existissem os criminosos não atuariam?

Seria o livre comércio e os acordos comerciais entre povos responsáveis pelos estupros
e assassinatos, como está na mensagem subliminar transmitida pelo filme?

As pessoas são todas boas, o que representa o mal é o “trabalho escravo” a que são submetidas?

Não seria a mesma leitura que os indígenas faziam do demônio, a que o diretor do filme faz dos ianques?

Ou, o demônio, ridicularizado no filme, teria transferido seus poderes e sentimentos aos capitalistas exploradores?

Como devem ser catalogados filmes ou atitudes em que se  foca um acontecimento, visando chamar a atenção  para outro assunto e  induzir os jovens ao erro de  tirar conclusões baseadas em suposições forjadas?

Marina se via envolvida numa situação que jamais imaginaria que existisse. Movida por impulsos, discordava dos professores, fazia valer seus direitos de aluna e cidadã. Com muita contundência, defendia sua inteligência e as dos colegas do que considerava verdadeiras agressões, uma vez que, professores abusando do direito à liberdade de cátedra, estavam, no seu entendimento de pessoa vivida, doutrinando os alunos nas suas crenças ideológicas.
           
  A princípio os colegas se assustavam com aquela senhora, fora de seu habitat, que discutia com o professor que evocava a cada instante o seu título de doutor. Com o tempo se acostumaram, e diante de uma afirmação mais incisiva da cátedra olham para ela espreitando novo bafafá. 

O desconforto aumentava quando, ao comentar o que  acontecia dentro das salas de aula com pessoas da sua idade, a maioria a olhava com descrença, considerava  impossível que tal fato viesse a  acontecer. 

A geração das pessoas acima de 50 anos não pode conceber que se doutrine estudantes, em qualquer área do pensamento, dentro da universidade, onde se espera que aconteça apenas a grandíssima pluralidade de ideias e a explosão benéfica do contato entre a criatividade, o conhecimento científico e a produção de projetos que propiciem o progresso partilhável com toda a humanidade.

A continuação dos estudos mostrou que uma corrente de pensamento invadiu as universidades, aplicando o método de Gramsci, impondo a hegemonia de sua ideologia aos incautos alunos. Faz isso usando as formas de manipulação ensinadas, que são atribuídas, com veemência e constância, aos demonizados “industriais da cultura” e ao que considera o próprio demônio, o capitalismo, que segundo a ideologia, são os únicos responsáveis por todas as mazelas do mundo. Eis seu dogma precioso e sagrado, inoculado como se fosse um vírus.

Esse movimento começou na Universidade de Birmingham, na Inglaterra, a partir de 1964; a Dra. Angela Prysthon, no seu trabalho: “Histórias da teoria: os estudos culturais e as teorias pós-coloniais na América Latina”, diz que: "os Estudos Culturais ( nome da corrente de pensamento) se estabeleceram como um terreno por excelência, tanto para o estudo como para o próprio desenrolar das transformações", noutras palavras, os próprios professores seriam militantes a serviço da ideologia política.
           
Marina segue pensando, cheia de angústia: usar este tipo de subterfúgio: mensagem subliminar; oferecer aos jovens somente uma visão de mundo, como se fosse a única, fazer das aulas na academia uma catequese ideológica, não seria  considerado violência?

Não seria transformar as Universidades em fábricas de produção em massa de escravos mentais a serviço da ideologia, produzindo profissionais subalternos às ideias da figura ícone de plantão? Ou então, à mercê das próprias deduções, uma vez que  tiveram as referências desconstruídas, podem sentir o frêmito desejo de sair destruindo tudo o que foi construído “pelo capitalismo”. Nesse caso as universidades seriam grandes produtoras de “black-blocs”.
 
No parecer de Marina, essa ideologia, pretende mudar, as mais profundas concepções   as que  conferem identidade ao gênero humano, desconstruindo  sólidos valores, enquanto  inoculam outros conceitos que, estes sim, têm o condão de transformar a humanidade em  dóceis repetidores de verdades forjadas.  Pondera que Albert Einstein pode ter sido também um profeta quando disse que “O grande problema da humanidade não está no domínio da Ciência, mas no domínio dos corações e das mentes humanas”.


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