Em 2005, não me lembro, exatamente, se
em agosto ou setembro, ainda não existia a AACL – Associação dos Amigos da
Causa da Lola -. Estávamos no meio de grande carência de orientação a respeito
de assunto tão importante como a santidade, na nossa arquidiocese. Os padres só
nos mandavam ficar quietos, e, talvez
por causa da nossa insistência em falar com Dom Luciano, ouvimos o pároco da
igreja de São Manoel dizer no sermão de
uma missa, que Dom Luciano era um homem muito importante e muito ocupado, que
quase não estava disponível em Mariana;
num momento estava em Brasília, noutro em São Paulo, noutro em Madri... ele
não tinha tempo para dar atenção a assuntos menores.
Na saída da missa ficamos conversando,
procurando uma saída para o nosso assunto, que considerávamos importantíssimo. Lembramos-nos então, que o Cardeal Dom Eugênio Sales, Emérito do Rio de Janeiro,
talvez nos ajudasse. Pelos artigos que
escrevia no Jornal do Brasil podia-se notar que a visão que ele tinha da
religião católica era a mesma que a nossa. Além disso, o fato de ser emérito
com certeza lhe dava mais tempo, e quem sabe, poderia nos orientar?
A escritora carioca, Graça Pierotti (que estava escrevendo seu livro: "Milagres e
Testemunhos Eucarísticos" [São Paulo, Palavra e Prece -Cefid, 2006] , que traz um artigo sobre a Lola e foi publicado logo depois), conseguiu-nos uma audiência com
o Cardeal, usando a prerrogativa de ser avó de um grande e conhecido jornalista
que até hoje não sabemos quem é. Usando o nome do neto, ela conseguiu-nos a
audiência. Fomos então, no dia marcado, em dois casais, o Sr. Severino e Myriam
Vieira, José Carlos Aguiar, meu marido, e eu.
Disseram-nos
que o Cardeal iria nos receber muito rapidamente, que não se manifestaria a
respeito de nenhum assunto e nem receberia nenhuma reivindicação; em resumo,
nos receberia em nome da caridade cristã. Deveríamos levar por escrito do que
se tratava o assunto, em poucas palavras, para que o Cardeal se inteirasse do
assunto antes de receber-nos.
Escrevemos
então, com apreensão e depois de muita oração, a seguinte carta:
"Ao Cardeal Dom Eugenio Sales Eminência,
Muito agradecidos
pela graça de sermos recebidos, vimos pedir sua ajuda por sabermos ser o senhor
um homem de Deus. Um servo fiel do Deus Altíssimo; o que podemos comprovar por
todas as suas atitudes e pronunciamentos diante das mais diversas situações.
Podemos notá-lo pelos seus
escritos no Jornal do Brasil e, comprová-lo por ter o senhor participado dos
funerais do Santo Padre João Paulo II como seu amigo pessoal. Certamente, se o
senhor era amigo pessoal do Santo Papa, sabe realmente o que é uma alma santa.
Sabe Eminência, temos conosco um
tesouro que poucas pessoas nos dias de hoje sabem reconhecer o valor. A nossa
responsabilidade é enorme principalmente por termos a consciência de que ele
não nos pertence, mas a todo o povo de Deus tão carente de tal riqueza. Temos
sofrido muito por ver nosso tesouro ser ameaçado de ser enterrado, esquecido
sem que nosso povo possa tirar proveito de uma imensa prova de amor que Deus
nos dá através do exemplo de vida da nossa Floripes Dornelas de Jesus, a Lola.
A vida de Lola nos mostra as
maravilhas que Deus pode operar através de uma pessoa mesmo que ela seja
mulher, pobre, sem cultura acadêmica, reclusa na área rural, doente, paralítica
e idosa, que vivia em clausura permanente. Enfim ela tinha todos os motivos
para se sentir uma excluída, marginalizada, e, portanto revoltada se se
enquadrasse no discurso das pregações modernas. No entanto era a pessoa mais
feliz da face da terra. Não tinha carência absolutamente de nada. Tinha o
Próprio Deus junto de si. Não precisava nem mesmo de comida e bebida material.
Esse fato era apenas um insignificante detalhe para ela. Não sentia falta de
nada.
Embora presa a seu leito,
tinha uma vida totalmente normal. Era uma boa “sitiante” como dizemos aqui.
Sabia negociar, gerir os negócios, tinha um espírito empreendedor com o qual
ajudava a muitas pessoas. Essa capacidade se manifestava mais na divulgação da
devoção ao Sagrado Coração de Jesus. Basta ver o número de adeptos do
Apostolado da Oração em Rio Pomba. Principalmente o masculino. Tudo por
diligencias tomadas a partir de suas orientações.
Não existe, praticamente,
em Rio Pomba uma casa onde não se tenha alcançado uma graça por intercessão da
Lola; através de suas orações, quando viva, ou após a sua morte, pedindo a sua
intercessão ao Coração de Jesus.
Lola sempre foi um ponto de
referencia para a nossa fé em Rio Pomba e região. Sempre teve todo o respeito e
carinho de toda a população de Rio Pomba e o apoio de todos os sacerdotes que
aqui serviam a Deus. E de muitos outros que vinham às vezes de longe para pedir
as suas orações. Dom Oscar de Oliveira, nosso antigo Arcebispo permitiu que Santíssimo
Sacramento ficasse em seu quarto, onde era adorado dia e noite (ela também não
tinha necessidade de sono).
Sempre foi
assim até o advento da chamada Teologia da Libertação quando os novos padres
foram chegando com uma pregação focada no materialismo; dizendo que só tinha
valor a caridade concreta. Pessoas como a Lola foram marginalizadas e
ridicularizadas nas entrelinhas das pregações. Ao povo é negado o incentivo dos
padres em valorizar o exemplo dado pela Lola.
Tudo o que se conseguiu até agora
foi a custo de muita insistência por parte de uns poucos que não são bem vistos
pelos padres, por serem adeptos de espiritualidades estéreis, segundo eles.
Agora temos
por iniciado o processo de beatificação com a coleta de inúmeros depoimentos de
graças e milagres alcançados por sua intercessão. Mas temos também uma carta do
senhor Arcebispo colocando tudo nas mãos dos padres que sabemos não dar nenhum
valor ao que mais valorizamos na vida da Lola. Entenda que não esperamos muito
deles devido às atitudes que têm tomado até aqui. Gostaríamos de fazer tudo o
que estiver ao nosso alcance para que a obra da Lola continue, mas não
confiamos nos conselhos que nos dão os nossos padres, que se resumem num só.
Ficar quietos. Não
podemos aceitar esse conselho sem antes confirmá-lo com uma pessoa como o
senhor, que sabemos ser um adorador do Deus Altíssimo. Será que não podemos
fazer nada mesmo? Nós, que somos naturalmente excluídos justamente pelo nosso
interesse pela causa da Beatificação da Lola. Gostaríamos
que o senhor nos orientasse nos dizendo o que nós, como leigos, poderemos fazer,
para que uma riqueza espiritual da Mãe Igreja, como a vida da Lola, possa ser
usufruída pelo maior número de pessoas possível. Mas sem, no entanto,
desobedecer em nada a Sé de Roma, mesmo que, se necessário for, com muita dor
no coração, contrariar os seus representantes daqui.
Agradecemos
a Deus e ao senhor a felicidade de ter a quem reportar tudo isso na certeza de
que o Coração de Jesus providenciará tudo o que for necessário para que o nosso
coração continue a serví-Lo no gozo da Sua Paz e Sua Alegria.
Louvado seja Nosso Senhor Jesus
Cristo."
Ao nos encontramos, pois ela também
participaria da audiência, dona Graça nos tranquilizou dizendo que o escrito estava bom.
Ao chegarmos, entregamos a carta à secretária na
entrada da sala, e aguardamos. Após alguns instantes, vimos o Cardeal entrar
com uma enorme expressão de alegria e nos conduzir para uma ampla sala de
reuniões. Queria saber tudo, estava como quem
tivesse recebido um grande tesouro com as informações que trazíamos. Myriam
mostrava-lhe as cópias de alguns documentos, que ele olhava com grande entusiasmo.
Depois falou-nos por longo tempo, que
as coisas eram complicadas, que ele não poderia aceitar nos ajudar diretamente
por causa das normas éticas, uma vez tínhamos um arcebispo a quem reportar, mas
que talvez, o então novo bispo auxiliar de Juiz de Fora, Dom Paulo Francisco
Machado, pudesse nos dar algumas orientações por estar numa cidade bem próxima
a Rio Pomba e ter um pouco mais de disponibilidade como bispo auxiliar.
O que ficou intensamente marcado na
nossa memória foi o fato de Dom Eugênio, enquanto falava, ficar apertando
contra o coração as cópias dos documentos que Myriam levara, pensávamos que
fosse devolvê-los, mas ele disse que tudo deveria ficar com ele.
Despediu-nos com sua bênção, e seu
silencioso estímulo.
Logo em seguida, marcamos uma
audiência com Dom Paulo. Ele jovem, muito jovem, ficou muito impressionado com o
assunto que levamos. Disse que no seminário não aprendeu nada a respeito de
piedade, em palavras dele "só conheceu o Evangelho, seco." Disse que
também não poderia nos orientar por razões de ética.
Dom Paulo também foi de grande valia
para a Causa da Lola, foi ele que nos disse, ao perguntarmos se poderíamos
fundar a associação ( a AACL - Associação dos Amigos da Cauda da Lola) que: "Os cristãos podem e devem se associar para
realizações, desde que observem os dez mandamentos".
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