sábado, 7 de dezembro de 2013

O contexto de Mandela

A grande repercussão na mídia da morte de Nelson Mandela aguça a curiosidade de conhecer mais profundamente esse personagem da história humana. É sempre bom considerar que, se quisermos preservar a identidade de nossa escala de valores, precisamos estar atentos a certos detalhes divulgados junto com as notícias e artigos que nos são mostrados continuamente pelos veículos de comunicação, como se fossem itens de figuração nos filmes.

Aliás, a sétima arte, o cinema, é o meio que mais tem poder de comunicar. É impossível acontecer uma obra cinematográfica sem que todas as outras artes, valiosos instrumentos de comunicação, ali estejam incluídas.  Assim, além da direção e da literatura do roteiro, a fotografia, a atuação teatral, a sonoplastia, a cenografia, e ainda outras artes, se encontram numa película cinematográfica, todas como fontes de informação.

No roteiro está especificado o contexto, onde e quando acontece a história, cujos detalhes são explicitados pelo trabalho de cenografia, de figurino, além das falas e atitudes dos atores. Esses detalhes podem falar mais, a um olhar mais observador, do que até a própria mensagem principal do diretor.




Cenas do filme Repórteres de Guerra, de Steven Silver

Assim, o filme dirigido por Steven Silver, Repórteres de Guerra (no original The Bang Bang Club), baseado em fatos reais, focando os dramas pessoais de quatro repórteres fotográficos nos últimos dias de apartheid na África no Sul, mostra também, “nas entrelinhas” , o papel de Nelson Mandela em todos aqueles acontecimentos.

Logo no início, numa entrevista dada a um dos repórteres, o líder dos inkhatas, os zulus, respondendo por quê estavam em guerra contra  seguidores do  ANC (Congresso Nacional Africano),  disse que “os meninos de Mandela” os oprimiam, não os deixavam trabalhar  para obedecer ao comando de greve. Segundo ele, lutavam pelo direito de trabalhar e defender a manutenção de suas casas e famílias. 

  Os seus militantes contavam, revoltados, que não podiam fazer compras para obedecer ao boicote ordenado por Mandela. Que um deles, voltando para casa com uma sacola de compras de mercado, foi submetido à tortura de beber todo o óleo de fritar que trazia e engolir, violentamente, o  sabão comprado.

  Reclamavam de um sentimento comum a muitos pais atuais dos lugares “mais civilizados”: de que os filhos eram induzidos a não mais respeitar os pais, e contra eles se colocavam para seguir as novas ideias.

Alguns minutos depois, na cena que, fotografada, deu o prêmio Pulitzer a um deles, os seguidores de Mandela tiram de um vagão de trem um homem que foi queimado vivo, e depois decapitado com um facão, por estar com um macacão azul de trabalhador de fábrica. Advertidos pelo repórter acerca da injustiça sendo cometida, disseram, seus algozes que se tratava de um zulu, e que sua morte serviria de exemplo para quem não quisesse  cooperar com o movimento deles.

Detalhes como estes são reveladores de como o próprio Mandela foi o semeador de todo esse ódio que movia seu povo numa guerra civil.  A ideia marxista, que demoniza os que produzem, contaminou com a cizânia um povo rico de sentimento. O sentimento de revolta e de dor, canalizado em ódio, movia tanto o lado dos que defendiam as ideias marxistas quanto dos que se recusavam a aceitá-la.  O racismo, no fundo, era só um pretexto para luta entre classes. Tal impressão é confirmada pelo o escritor e poeta sul-africano, Zakes Mda, em artigo publicado no “The New York Times” e no “Estado de São Paulo “ ( edição de 07/12/13):  “É irônico que na África do Sul atual haja um segmento cada vez mais contundente de sul-africanos negros que sentem que Mandela vendeu a luta pela libertação aos interesses brancos”.

Continuando com o olhar analisador pode-se concluir que o papel que Mandela pôde representar na unificação do país, só aconteceu depois de ter passado muitos anos preso, carregando pedras, ou seja, trabalhando o corpo e a mente. Tal conclusão se chega mais ainda facilmente depois de, numa pesquisa rápida na internet, descobrir que assim como Marx, Engels, os professores da Escola de Frankfurt, Che Guevara, e outros grande marxistas, defensores dos trabalhadores, Mandela foi um bem-nascido, que vivia de ideias, sem se aplicar a um trabalho normal, como a imensa maioria de nós…


Reduzindo à simplicidade todo o raciocínio, Nelson Mandela ajudou a pacificar uma guerra da qual ele foi grande causador.
                                                                       Giselle Neves Moreira de Aguiar


Ficha do filme:Repórteres de Guerra ( Bang Bang Club)

Lançamento: 2011 ( 1h46 min)
Dirigido  por : Steven Silver
Com: Ryan Phillippe, Taylor Kitsch, Malin Akerman e outros
Gênero: Drama, Guerra
Nacionalidade: Canadá, África do Sul
Distribuidor : Paris Filmes
Fonte: Adoro Cinema


Assista ao filme no Youtube






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