quinta-feira, 8 de setembro de 2011

Senhor, Liberta-me de Mim


                                                           Michel Quoist, no livro Poema para Rezar

Pessoas existem que são vítimas de si próprios, mais desgraçados do que poderíamos imaginar, condenados que são a amar apenas a si próprios. É forçoso compreender os que sofrem, quando sofrem, pois este tormento é nada menos que a experiência do inferno. Pode ser também o ponto de partida da salvação se vierem a encontrar um amigo que lhes faça descobrir que estão sendo algozes de si próprios. Se vierem a encontrar, sobretudo, um militante que seja para eles, de fora, a luz e a alegria que tiram o homem fora de si.
            Quem sabe então rezarão – sob uma forma ou outra – a oração que segue. Se pedirem então lealmente a Deus que os liberte de si próprios, estão salvos. É a primeira etapa.
            Podemos, nós também, fazer esta oração nas noites em que voltamos para casa com o propósito de escapar aos outros e a Deus.

. . . Jesus estava caminhando: um homem veio a ele e, dobrando os joelhos diante dele, perguntou-lhe: “Bom Mestre, que devo fazer para obter a vida eterna?”
            . . . Então Jesus, fixou nele o olhar e começou a amá-lo. Disse-lhe então: “Uma só coisa te falta: vai vende tudo quanto tens e dá-os aos pobres, e terás um tesouro no Céu. Depois vem, segue-me.”Ele porém, ouvindo estas palavras, turbou-se e foi-se indo embora, triste, porque era dono de muitos bens.”(Evangelho de Marcos , 10. 17-22).

Tu me escutas , Senhor?

Sofro de modo atroz,
Encarcerado em mim mesmo
Prisioneiro de mim mesmo,
Só ouço a minha voz,
Só enxergo a mim próprio,
E por detrás de mim, só o sofrimento existe,

Tu me escutas Senhor?

Liberta-me de  meu corpo: ele é pura fome, e tudo o que ele toca com seus grandes olhos incontáveis, com suas mil mãos estendidas, crispadas, é sempre para se apossar e tentar acalmar seu apetite insaciável.

Tu me escutas Senhor?

Liberta-me de meu coração: ei-lo todo enfunado de amor, mas quando penso que amo loucamente, entrevejo, coberto de vergonha, que, através do outro, é a mim próprio que amo.

Tu me escutas Senhor?

Liberta-me de meu espírito: está cheio de si mesmo,
De suas ideias, de seus julgamentos
-- nem sabe dialogar, pois nenhuma outra palavra o atinge senão suas próprias palavras.
Sozinho, me aborreço,
me canso,’
detesto-me,
enojo-me a mim mesmo.
Há quanto tempo me reviro em minha mísera pele como num leito de doente do qual quisera escapar.

Tudo me parece mesquinho e feio, sem luz,
. . . é que nada posso ver que não seja através de mim mesmo.
Sinto-me prestes a odiar as pessoas e o mundo inteiro,
. . . por despeito, já que não as posso acusar.
Quisera sair,
Quisera andar, correr para um outro país.
Sei que existe a ALEGRIA: vi-a cantar em alguns rostos.
Sei que rebrilha a LUZ: vi-a iluminar certos olhares.
Mas, Senhor, não consigo libertar-me, gosto de minha prisão, ao mesmo tempo que a odeio.
Pois sou a minha prisão.
E me amo
Amo-me, Senhor, e tenho náuseas de mim.

Nem encontro, Senhor, a porta de mim mesmo.
Arrasto-me às apalpadelas, às cegas,
Esbarro em minas próprias paredes, em meus próprios limites,
Firo-me
Sinto dor,
Sinto dores demais – e ninguém sabe,
Porque ninguém jamais entrou dentro de mim.
Estou só. Sozinho.

Senhor, Senhor, tu me escutas?
Senhor, mostra-me a minha porta; toma-me pela mão,
Abre,
Aponta-me o Caminho,
A estrada da ALEGRIA, o sendeiro da LUZ.

. . .Mas. . .
Mas, Senhor, tu me escutas?

Meu menino, eu te escutei:
Causas-me dó. Me fazes pena.
Há quanto tempo que espreito tuas persianas cerradas,
abre-as,
Minha Luz há de te iluminar.
Há quanto tempo me posto à tua porta trancada,
abre-a,
me encontrarás à soleira.

Eu te espero, os outros te esperam,
Mas tens de te abrir,
Tens de sair de ti.

Por que ficar prisioneiro de ti mesmo?
És livre.
Não fui eu quem fechou tua porta,
Não serei eu quem a possa descerrar,
. . . pois és tu que, de dentro,
A guardas fortemente aferrolhada.

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